Todo dono de farmácia que ouve falar em clube a preço de custo faz a mesma pergunta: "se eu vendo pelo custo, de onde vem o meu lucro?".
A resposta honesta: depende de quem entra no clube. Com o cliente certo, o clube dá lucro e segura o cliente na sua loja. Com o cliente errado, você só dá desconto para quem já comprava de você. Vamos fazer a conta com números redondos.
Resumo rápido: o clube dá lucro quando traz para a sua farmácia um gasto que hoje vai para a concorrência. Com quem já compra tudo com você e gasta muito, ele pode dar prejuízo. E "custo puro" dá prejuízo em toda venda, por causa de imposto e taxa de cartão. A saída é cobrar custo + taxa operacional.
Primeiro, os números da farmácia
Antes da conta, três números que vamos usar o tempo todo:
- Margem bruta de 30%. Segundo contabilidades do setor, a margem bruta do varejo farmacêutico fica entre 25% e 40%. Vamos usar 30%: um produto de R$ 100 no balcão custou R$ 70 para você.
- Genéricos podem passar de 50% de margem. Guarde isso: é onde o clube brilha para o cliente.
- Lucro líquido de 2% a 6%. Depois de imposto, aluguel e folha, sobra pouco. Por isso qualquer desconto tem que ser bem pensado.
Para os exemplos, vamos supor uma mensalidade de R$ 40. Clubes a preço de custo que já existem no mercado cobram entre R$ 29,90 e R$ 34,90 por mês. Use o valor da sua farmácia no simulador; a lógica é a mesma.
Conta 1: quanto o cliente precisa gastar para o clube valer a pena
Para o cliente, a conta é simples: a mensalidade se paga quando a economia do mês passa do valor dela.
Gasto de empate = mensalidade ÷ desconto que o cliente recebe
| Como o clube cobra | Desconto para o cliente | Gasto mensal para a mensalidade de R$ 40 se pagar |
|---|---|---|
| Custo puro (margem 30%) | 30% | ~R$ 133 no preço de balcão |
| Custo + 10% (margem 30%) | 23% | ~R$ 174 no preço de balcão |
| Custo + 10% em genéricos (margem 50%) | 45% | ~R$ 89 no preço de balcão |
Quem gasta R$ 50 por mês não tem motivo para assinar. Quem compra genérico de uso contínuo empata rápido. Quem gasta acima de R$ 200 é o público natural do clube.
E quanto o brasileiro gasta? Na pesquisa Uso de Medicamentos no Brasil 2026, da Opinion Box, 56% dos entrevistados dizem gastar entre R$ 51 e R$ 200 por mês em farmácia. Só 26% gastam mais de R$ 200, e 18% passam de R$ 300. Ou seja: o clube não é para todo mundo. É para uma fatia de clientes que gastam bem, e isso muda a conta da farmácia.
Conta 2: o resultado da farmácia com cada tipo de cliente
Aqui está o ponto que quase ninguém explica. Para a farmácia, existem dois tipos de assinante:
- O cliente que já era seu e já comprava tudo com você.
- O cliente novo (ou o gasto novo) que antes ia para outra farmácia.
Com o preço de membro em custo + 10%, a conta aproximada fica assim:
- A cada R$ 100 de balcão que viram compra de clube de um cliente que já era seu, você deixa de ganhar cerca de R$ 21 (a margem que virou desconto, já descontando o imposto e a taxa de cartão que você pagaria de qualquer jeito).
- A cada R$ 100 de balcão que chegam novos, você ganha cerca de R$ 2, porque a taxa operacional paga o imposto e o cartão e ainda sobra um pouco.
- A mensalidade entra quase inteira. Consideramos R$ 36 líquidos dos R$ 40, reservando 10% para imposto e custo de cobrança da mensalidade.
Resultado mensal por assinante, conforme quanto ele gasta e quanto desse gasto é novo:
| Gasto mensal do assinante (balcão) | 0% novo (já era seu) | 30% novo | 100% novo (veio da concorrência) |
|---|---|---|---|
| R$ 100 | +R$ 15 | +R$ 22 | +R$ 38 |
| R$ 200 | −R$ 7 | +R$ 7 | +R$ 40 |
| R$ 300 | −R$ 29 | −R$ 7 | +R$ 42 |
Essa tabela resume o modelo inteiro:
- Cliente novo sempre dá lucro. Traz a mensalidade e um gasto que você não tinha.
- Cliente antigo que gasta pouco dá lucro, mas quase não tem motivo para assinar.
- Cliente antigo que gasta muito dá prejuízo. E é justamente quem mais quer assinar.
Em português de balcão: o primeiro a pedir a carteirinha é o seu melhor cliente, que já comprava tudo com você.
Conta 3: o lucro de verdade vem do gasto que hoje vai para a concorrência
Se o clube só "premiar" quem já é fiel, você troca margem por nada. O clube dá lucro quando faz uma destas coisas:
- Traz cliente novo, que antes comprava em outra farmácia ou no aplicativo de uma grande rede.
- Puxa para você a parte do gasto que o seu cliente faz fora. Quase todo cliente divide as compras: o remédio de uso contínuo aqui, o genérico mais barato ali, o dermocosmético na farmácia do shopping. Com a carteirinha, ele tem um motivo para concentrar tudo em um lugar.
E o consumidor se move por preço: 72% dizem que o preço é o principal fator na escolha da farmácia, e 48% pesquisam antes de comprar. O clube vira um motivo concreto para ele parar de pular de farmácia em farmácia.
Com assinantes que gastam R$ 200 por mês, a farmácia empata quando cerca de 15% do gasto deles é novo. Com assinantes que gastam R$ 300, precisa de cerca de 40%. Quanto mais o assinante gasta, mais gasto novo o clube precisa trazer.
Estratégia: preço de custo só em alguns setores
Você não precisa colocar a loja inteira a preço de custo (explicamos a ideia também em farmácia com preço de custo: como funciona). Uma saída que melhora muito a conta é escolher só alguns setores para o clube, por exemplo fraldas, genéricos ou higiene. Escolha as categorias em que o seu cliente mais compra fora.
Assim você abre mão da margem só onde ela serve para atrair. O resto da loja continua com a margem normal. E o cliente que vem pela fralda a preço de custo leva o protetor, o dermocosmético e a vitamina pelo preço de sempre.
Veja o efeito com o mesmo assinante que já era seu e gasta R$ 200 por mês:
| Loja inteira no clube | Só alguns setores no clube | |
|---|---|---|
| Quanto do gasto dele passa a ser preço de membro | R$ 200 | R$ 60 (ex.: fraldas e genéricos) |
| Margem que você deixa de ganhar (~21,5%) | −R$ 43 | −R$ 13 |
| Mensalidade líquida | +R$ 36 | +R$ 36 |
| Resultado por mês | −R$ 7 | +R$ 23 |
Valores arredondados, com as mesmas premissas do resto do post: mensalidade de R$ 40, preço de membro em custo + 10%. Os R$ 60 em setores do clube são só um exemplo.
O cliente fiel que gasta muito, e que é justamente o que mais quer assinar, deixa de dar prejuízo. O cliente novo continua dando lucro: ele entra pelo setor barato e passa a comprar o resto na sua loja.
Na prática:
- Setor a preço de custo atrai o cliente e faz ele voltar todo mês;
- O resto da loja continua com a margem normal;
- Você ajusta quais setores entram olhando os números de cada mês.
Por que vender a custo puro dá prejuízo
"Preço de custo" parece zero a zero. Não é: alguns custos incidem sobre a venda e não somem porque o preço baixou.
1. Imposto sobre a venda. Depende do regime da sua farmácia:
- PIS/Cofins: a maioria dos medicamentos está nas listas positiva ou negativa da CMED. Nesses casos o PIS/Cofins é cobrado na indústria, e a farmácia revende com alíquota zero. Os medicamentos da lista neutra e parte dos outros produtos seguem a tributação normal.
- ICMS: em medicamento, o ICMS costuma vir por substituição tributária (ICMS-ST), ou seja, já foi pago antes e está embutido no preço que você pagou ao distribuidor. Por isso ele precisa entrar no seu "custo".
- Simples Nacional: mesmo tirando da guia a parte de PIS/Cofins e de ICMS dos produtos monofásicos e com ST, sobram IRPJ, CSLL e a contribuição previdenciária (CPP). Exemplo: uma farmácia que fatura R$ 1,2 milhão por ano está na 4ª faixa do Anexo I, com alíquota efetiva perto de 8,8%. Tirando as partes de PIS, Cofins e ICMS, sobram cerca de 4,5% sobre a venda.
- Lucro Presumido: no comércio, IRPJ e CSLL somam cerca de 2,3% do faturamento (presunção de 8% e 12%), mais PIS/Cofins e ICMS nos itens que não são monofásicos ou com ST.
2. Taxa de cartão e de PIX. Segundo dados do Banco Central, a taxa média cobrada do lojista no 1º trimestre de 2026 foi de 1,95% no crédito à vista, até 2,4% no parcelado, e 1,08% no débito. O PIX para empresa pode ter tarifa: vários bancos cobram algo como 0,99% a 1,45% no recebimento em conta PJ, conforme o contrato.
Juntando imposto e cartão, é razoável contar com algo como 6% a 7% sobre cada venda (no exemplo do Simples, 4,5% de imposto e 2% de cartão). Veja o efeito:
| Venda de um item que custou R$ 70 | Custo puro | Custo + 10% |
|---|---|---|
| Preço para o assinante | R$ 70 | R$ 77 |
| Imposto + cartão (~6,5%) | −R$ 4,55 | −R$ 5,00 |
| Sobra para a farmácia | −R$ 4,55 | +R$ 2,00 |
No custo puro, cada venda sai no vermelho. Com 150 assinantes gastando R$ 200 por mês, isso dá cerca de R$ 1.365 de prejuízo por mês, só de imposto e cartão.
A solução: custo + taxa operacional
É por isso que os modelos mais sérios falam em "quase preço de custo". Nos Estados Unidos, uma farmácia online conhecida cobra o custo do remédio + 15% + uma taxa fixa por receita, e deixa essa conta aberta para o cliente.
Para a sua farmácia, a regra prática é:
- Defina o preço do assinante como custo + uma taxa operacional (ex.: 8% a 12%) que cubra imposto, cartão e um pequeno colchão.
- Deixe isso claro na comunicação: "preço de custo + taxa operacional de X%". Transparência gera confiança e evita promessa que você não consegue cumprir.
- Confirme a taxa com o seu contador. O percentual certo depende do seu regime, da sua faixa e do seu mix. E a reforma tributária (CBS e IBS) vai mudar essa conta nos próximos anos.
Quer ver essa conta com os números da sua farmácia? Simular quanto minha farmácia ganha: você preenche o formulário e recebe o retorno pelo WhatsApp em até 1 dia útil.
Exemplo completo: uma farmácia com 150 assinantes
Vamos juntar tudo num cenário conservador, de uma farmácia hipotética:
- 150 assinantes pagando R$ 40 por mês (R$ 36 líquidos).
- Cada um gasta, em média, R$ 200 por mês no balcão (R$ 30 mil no total).
- Preço de membro em custo + 10%.
- Só 30% do gasto é novo. Os outros 70% já eram da farmácia.
| Linha | Valor por mês |
|---|---|
| Mensalidades líquidas (150 × R$ 36) | +R$ 5.400 |
| Margem que deixou de ganhar no gasto antigo (R$ 21 mil × 21,5%) | −R$ 4.515 |
| Sobra no gasto novo (R$ 9 mil × 2%) | +R$ 180 |
| Resultado do clube | +R$ 1.065 |
Agora mude só a parte do gasto que é nova:
| Parte do gasto que é nova | Resultado por mês |
|---|---|
| 20% | +R$ 360 |
| 30% | +R$ 1.065 |
| 50% | +R$ 2.475 |
Três leituras honestas:
- Com pouco gasto novo, o clube quase empata. Com 20%, sobram R$ 360 antes da licença da plataforma e da divulgação.
- O que faz a diferença é captar. Cada ponto de gasto que você tira da concorrência melhora a conta.
- Essa conta ainda não inclui os outros ganhos do próximo tópico. Ela é de propósito pessimista.
Os ganhos que não aparecem na primeira conta
A tabela acima só olha a margem do que o assinante compra no clube. Existem outros efeitos:
- Frequência. O assinante tem um motivo para voltar todo mês. 92% dos brasileiros já compram em farmácia pelo menos uma vez por mês; a pergunta é em qual.
- Ticket e itens de margem alta. Se o seu clube vale só para medicamentos, o assinante que entra na loja também leva higiene, perfumaria e dermocosméticos pelo preço normal. Esses itens não têm preço tabelado pela CMED e costumam ter margem melhor que a do medicamento. Só higiene, beleza e perfumaria movimentaram R$ 24 bilhões nas farmácias em 2024, segundo dados IQVIA citados pelo setor.
- Dependentes. Com filhos, pais ou cônjuge no plano, o gasto da família tende a vir junto: mais gasto novo com a mesma mensalidade.
- Receita previsível. A mensalidade cai todo mês, com ou sem movimento na loja.
- Custo menor para manter cliente. Estudos citados pela Harvard Business Review estimam que conquistar um cliente novo custa de 5 a 25 vezes mais do que manter um que você já tem. O clube é uma ferramenta de retenção que o próprio cliente paga.
- Fidelidade pesa na escolha. 44% dos brasileiros dizem que programas de fidelidade influenciam onde compram remédio.
Quando o clube a preço de custo NÃO compensa
Seja honesto com você mesmo antes de lançar. O clube tende a não compensar quando:
- Seus clientes já compram quase tudo com você. Não há gasto para trazer de fora. Você só troca margem por mensalidade.
- Seu público gasta pouco por mês. A mensalidade não se paga para eles, e eles não assinam (ou cancelam logo).
- Muitos clientes pegam o remédio de uso contínuo de graça no Farmácia Popular. O programa oferece 41 itens gratuitos com receita, para hipertensão, diabetes, asma e outras condições. Esse cliente tem menos motivo para assinar.
- Você não vai divulgar. Clube sem divulgação atrai só o cliente fiel que já está no balcão, justamente o que dá prejuízo.
- Você quer vender a custo puro. Aí cada venda perde dinheiro.
Se a sua farmácia se encaixa em dois ou mais pontos, comece por uma cesta menor (só genéricos, por exemplo) ou reveja a mensalidade. Se ainda está escolhendo o modelo, veja também pontos, cashback ou assinatura: qual prende o cliente na farmácia.
Como operar isso sem virar refém de planilha
A conta é simples. O difícil é manter: cobrar todo mês, controlar quem é assinante, cadastrar dependentes, atualizar o preço de membro quando o custo muda e mostrar ao cliente quanto ele já economizou.
A Membo foi feita para isso. A sua farmácia roda um clube de assinatura com a sua marca, sem equipe de TI: cobrança recorrente por PIX, cartão ou boleto, carteirinha digital com titular e dependentes, painel de economia para o cliente e catálogo por CSV exportado do seu sistema (a integração automática vem depois). A receita das assinaturas é da farmácia; a Membo cobra uma licença pela plataforma. Quer ver o passo a passo da implantação? Leia como criar um clube de desconto na sua farmácia em 5 passos e o comparativo de ferramentas para clube de desconto.
Antes de decidir, faça a sua conta. Simular quanto minha farmácia ganha: você informa os números da sua farmácia e recebe o retorno pelo WhatsApp em até 1 dia útil.
Fontes
- Contabilizape — Qual a margem de lucro de medicamentos no Brasil?
- eFarma.pro — Guia: qual a margem de lucro de farmácia (atualizado em abril/2026)
- Pesquisa interna Membo sobre clubes a preço de custo em operação no Brasil (15/09/2026), com base nos sites dos próprios clubes.
- InovaFarma — Relatório completo: como é o uso de medicamentos no Brasil (dados Opinion Box 2026)
- Guia da Farmácia — 72% dos consumidores priorizam preço na hora de escolher a farmácia (Opinion Box 2026)
- Guia da Farmácia — Medicamentos, o ICMS, PIS/Cofins e as listas positiva, negativa e neutra
- SimTax — PIS/Cofins: entenda as listas positiva, negativa e neutra dos medicamentos
- Contábeis — Tributação monofásica e ST: quais produtos excluir do PGDAS-D no Simples Nacional (jan/2026)
- Contábeis — Tabela do Simples Nacional, Anexo I (alíquotas e repartição)
- Portal Tributário — Lucro Presumido: cálculo da CSLL e Planning — Lucro Presumido: como calcular IRPJ e CSLL em 2026
- Banco Central — Dados abertos: taxas de desconto (MDR) por função do cartão e parcelas (médias ponderadas pelo valor, 1º tri/2026, calculadas pela Membo)
- Zoop — Tarifa do Pix para pessoa jurídica e Wise — Taxa Pix para pessoa jurídica
- Slate — modelos de farmácia online nos EUA com preço de custo + 15% + taxa (2023)
- Panorama Farmacêutico — Precificação estratégica protege a margem das farmácias
- Farmarcas — Produtos de perfumaria e cuidados pessoais movimentam R$ 30 bi em 2024 (dados IQVIA)
- Harvard Business Review — The Value of Keeping the Right Customers (2014)
- Agência Gov — Farmácia Popular terá todos os 41 remédios de graça

